domingo, 1 de janeiro de 2012

Mais valia uma tenda...

Hotel Aramaya
2006

Montevideu, ao contrário da sua congénere do outro lado do Rio da Prata, não é uma cidade grande e cosmopolita onde nos sintamos alegremente anónimos no meio das multidões. Embora eu lá tenha estado durante um fim de semana, deu para perceber que, por ali, o ritmo e o nível de vida eram muito inferiores aos de Buenos Aires. Consequência disso foi a dificuldade que tive em arranjar um local onde passar duas noites. Albergues não havia e, por mais que procurasse na internet, apenas encontrava hotéis.

Sempre tentando controlar as despesas, fiz reserva no Hotel Aramaya. As fotos mostravam um edifício antigo, daqueles prédios elegantes que há no centro das cidades (construídos na primeira metade do Séc. XX) e os quartos exibidos pareciam ser minimamente confortáveis. O preço era o melhor dos estabelecimentos junto ao centro da capital uruguaia e, portanto, a escolha era a certa.

Ao desembarcar em Montevideu imediatamente me apercebi de que a cidade não estava nas melhores condições: imensos edifícios abandonados no centro (por vezes, ruas quase inteiras), vagabundos circulando e, no geral, um tom pouco cuidado. Quando dei de caras com um enorme (e bem tratado) carro dos anos 50, estacionado junto a um prédio bastante estragado, lembrei-me logo daquelas imagens de Havana (Cuba) que por aí se veem...

Apesar do tom decadente das ruas que eu atravessava, o meu entusiasmo por estar no Uruguai não desapareceu. Sempre tive curiosidade em conhecer Montevideu, que eu imaginava ser - à semelhança de Bunos Aires -, uma "exótica" e elegante cidade europeia na América do Sul. E a verdade é que é uma terra com algum charme, cheia de edifícios bonitos que testemunham os tempos em que a exportação de carne e gado era verdadeiro ouro para aquelas gentes.

Atravessadas muitas ruas e passada a belíssima "Plaza Independencia", entrei na avenida "18 de Julio" onde ficava o hotel. Chegado junto deste confirmou-se o aspeto agradável do edifício. Entrei, confiante...

O aspeto interior do Hotel Aramaya era o de um local parado no tempo. De repente, era como se estivesse a entrar num "filme negro": a decoração, o estado das coisas, o ar das poucas pessoas que se viam, o cheiro... remetiam-me para o imaginário de uma época certamente muito interessante na tela de cinema mas que pouco se coaduna com as modernas exigências de conforto.

Feito o check-in fui conduzido ao meu quarto que ficava dois andares acima. O ar decadente parecia aumentar conforme eu "avançava" e o "filme negro" começava a dar lugar a uma qualquer coisa "série B". Pelos escuros corredores não se via ninguém, as paredes eram de uma cor creme triste, havia falhas nas pinturas das madeiras e tudo isto era envolvido por um cheio a mofo. Quando me abriram a porta do quarto, a alma caiu-me aos pés: aquilo era um pardieiro!

O interior do quarto
O quartinho que me tinha sido destinado (e que fazia parte dos mais baratos que o hotel tinha) estava algures entre o que se esperaria de uma casa abandonada e a casa de alguém muito mal na vida. Foi um choque: as madeiras estavam todas riscadas com assinaturas de anteriores hóspedes, as roupas da cama tinham um ar velho, a casa de banho era um cubículo onde tudo tinha um ar antigo e estragado... Fechada a porta do quarto pelo empregado, fiquei ali parado, sem reação.

Comecei a examinar melhor o local: o candeeiro da mesa de cabeceira não acendia, o comando da televisão estava estragado, o lavatório estava destacado da parede e o autoclismo parecia ter dificuldade em fazer o pouco que se esperaria dele. As torneiras, daquelas antigas, estavam a pedir a reforma há umas dezenas de anos e ninguém lhes tinha atendido. O que fazer? Apoderava-se de mim uma espécie de desespero: aquele sítio era um buraco! Eu sou, por natureza, bastante relaxado nas coisas domésticas e tenho um espírito bastante prático que me pede apenas um mínimo de conforto mas... aquele quarto estava a dar-me cabo da moral!

Sem conseguir chegar a uma conclusão sobre a medida a tomar (a óbvia seria pedir uma mudança de quarto mas, sinceramente, não me apetecia discussões e nem me parecia que o hotel oferecesse muito melhor), saí para a rua. Desde logo, não podia permitir que um problema com o quarto do hotel me impedisse de visitar Montevideu. Era para isso que ali estava: passear. A simples mudança de ar fez-me sentir como alguém que sai de uma prisão e encontra a liberdade: ruas, avenidas, árvores, pessoas...

Caída a noite e dada por Montevideu uma enormíssima volta que me fez atravessar a cidade, andar a queimar tempo num grande centro comercial (é tudo igual, onde quer que se vá), passear numa praia à noite, cruzar diversos bairros e ambientes e quase esquecer para onde tinha de voltar, lá tive de me conformar com a necessidade de ter de ir dormir ao desconsolador hotel.

Com alguma repugnância enfiei-me por entre os lençóis (que, diga-se, estavam limpos) e preparei-me para o merecido descanso. A meio da noite, sou acordado por um estrondo. Ainda recuperava do susto quando outro estrondo se fez ouvir. Regularmente, era como se uma bomba rebentasse por ali. Tentando manter a calma e perceber o que se passava, ao fim de um bom bocado resolvi sair do quarto e ver se descobria o que estava a acontecer. Abandonando a "segurança" do quarto, fiz-me aos corredores escuros de um hotel que parecia completamente abandonado. De vez em quando, novo estrondo. Segui na direção de onde me parecia vir o som e dei comigo dois andares mais acima olhando para uma janela do saguão que servia o lado do edifício onde eu estava abrindo e batendo com toda a força. Tudo parecia ser o cenário de um filme de terror e, se  o fosse, eu teria certamente algum louco com um facalhão esperando que eu me voltasse para acabar comigo. Felizmente, era apenas o vento fazendo tudo para me impedir de dormir num hotel onde, se calhar, não havia mais hóspedes ou, sequer, um empregado. Qualquer que fosse a situação, a verdade é que tive de ser eu a fechar a janela e assim devolver o sossego àquela noite.

De manhã, dormido o possível, uma luz viva entrava pela janela como que querendo evidenciar o ar triste do sítio onde eu acordara. Passava-me pela cabeça a ideia de "fugir" dali mas esta era logo combatida pelo meu lado prático: para onde? valeria a pena perder tempo (e dinheiro) só por mais uma noite? Hoje, teria valido. Com a idade vamos ganhando um sentido de dignidade, de revolta e, até, de desprendimento em relação ao dinheiro quando ele serve para bons fins. Mas naquele dia, impus a mim mesmo a obrigação de comer e calar.

Uma magnífica casa de banho
Por falar em comer: após  tomar banho com muita dificuldade (a casa de banho era estreitíssima e tinha de partilhar com o lavatório o espaço do duche - costume por aquelas zonas onde não há, propriamente, o hábito de usar banheiras), e de ter de usar um saco com água para fazer as vezes do autoclismo, dirigi-me para a sala de refeições. Esta era um sítio triste com algumas mesas num lado e um balcão com uma espécie de samovar noutro, onde havia alguns pães e as habituais embalagens de compotas. Lembro-me de que até a manteiga sabia mal... A única graça de ali ter ido (porque pouco serviu para me alimentar) foi ter visto uma hóspede. Afinal, eu não estava sozinho. Tive vontade de lhe perguntar o que tinha achado do "bombardeamento" da noite anterior...

Nesse dia já me custou menos voltar ao hotel. Tudo se mantinha na mesma mas a minha capacidade de me habituar rapidamente às situações aliada ao meu humor negro condenavam-me placidamente a mais uma noite naquele triste local de onde eu sairia, na manhã seguinte rumo à "nossa" Colónia do Sacramento.

Até hoje não voltei a ficar num sítio parecido com o Hotel Aramaya e não deixa de ser irónico que, fugindo eu de hotéis e sendo cliente de albergues, o pior local onde me tenha hospedado tenha sido, precisamente, um hotel. Fica à consideração daqueles que acham que o tipo de estabelecimento implica, desde logo, uma relação direta com a qualidade.

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